BOM DIA, BOA TARDE, BOA NOITE E BOA SORTE. QUE DEUS NA SUA INFINITA BONDADE NOS ILUMINE HOJE E SEMPRE.
CLEMENTINO, poeta e músico de São Sebastião-SP
Paraíso dos poemas e canções de um poeta e músico caiçara
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O SAPO
 
 
                    Numa cidade à beira mar, dois amigos, Leonel e Custódio viviam alegres e felizes, na mais perfeita harmonia, despreocupados de tudo.
                   Tinham mais ou menos a mesma idade, com diferença de meses tão somente.
                   Conheceram-se quando ainda na escola primária. Ambos já formados advogados, mantinham sociedade em um escritório, onde compartilhavam tudo entre si de forma quase que incondicional. Como eram competentes e organizados não lhes faltavam clientes e como se diz na gíria popular ia tudo de vento em popa.
                    Pensavam quase iguais e gostavam das mesmas coisas, tais como esportes, filmes, livros, músicas, time do coração, etc., com exceção de uma coisa:
                    Custódio era religioso. Sempre que podia freqüentava a sua igreja. Pregava o bem, a paz e o amor, e fazia questão de dizer que amava e respeitava Deus sobre todas as coisas.        
                   Leonel ao contrário declarava-se ateu. Se alguém puxava um assunto sobre religião, santos, Deus ou Jesus ele saia de perto. Dizia que não acreditava em nada disso e pronto. Mas como era educado procurava não envolver-se em polêmicas.
                    Passado algum tempo Custódio anunciou o seu casamento o mais breve possível com uma das professoras da cidade.
                    Leonel que também coincidentemente  estava namorando uma professora ficou muito feliz com a notícia. Naquele  mesmo instante os dois amigos combinaram que reciprocamente seria padrinho um do outro casal.
                    Marcado a data do casamento Custódio comunicou ao amigo. Entretanto insistiu na recomendação de não falhar. Leonel logo afirmou:
         - Claro meu irmão. Nesse dia estarei lá sem falta. Vou avisar a minha namorada pra providenciar as nossas roupas.
                    Custódio então educadamente corrigiu Leonel falando:
          - Querido irmão você devia dizer “se Deus quiser eu vou”, quando Leonel respondeu secamente:
          - Se Deus quiser eu vou e se ele não me quiser vou do mesmo jeito. Pode ter certeza de que nada e ninguém vão me impedir de ir.
                    Custódio um pouco triste, mas não querendo entrar em conflito com o amigo, calou-se encerrando o assunto.
                    Ao passar perto de uma gamboa [pequeno lago] na estrada em que transitava até a casa da sua namorada quando ia buscá-la e juntos irem à igreja, afinal, eram os padrinhos dos noivos;  o carro de Leonel derrapou e foi direto para a dita gamboa. Ali mesmo o carro afundou-se com o rapaz dentro.
                    A sua namorada foi sozinha para a igreja e informou que o Leonel não apareceu desde o dia anterior.
                    Com muita tristeza a cerimônia realizou-se e custódio saiu da igreja casado. Porém ele e a sua jovem esposa não se conformavam com aquela repentina ausência do seu melhor amigo e irmão tão querido.
                    O tempo passou implacável e o primogênito do casal já ia fazer cinco anos de idade. Os pais felizes da vida resolveram fazer uma festa para comemorar a data, já que nos anos anteriores não conseguiram fazer ainda pela tristeza do sumiço do amigo e irmão querido.
                    Faltavam uns dois meses para a festa, quando numa tarde chuvosa, do nada apareceu um sapo gigante na varanda da casa onde Custódio morava com a família. Todos olharam para o batráquio com curiosidade, mas não o agrediram. A esposa do Custódio depois de algum tempo pegou o animal cuidadosamente e foi deixá-lo num regato que tinha ali perto, Achou o animal um tanto esquisito, mas amorosa como sempre fora, beijou de leve as costas do sapo. Em seguida o soltou e voltou rapidamente pra dentro de casa.
                    Quando anoiteceu todos se recolheram e sentaram-se na cozinha para o jantar. Custódio pediu silêncio e atenção da esposa, dos filhos, dos seus pais, bem como da empregada declamando uma prece de agradecimento a Deus pelos bênçãos, pela mesa farta e por tudo o que o Pai Criador lhes dava, principalmente do alimento daquele dia e da aparição daquele animal que os deixaram alegres com o seu aparecimento repentino.
                    Mal acabou de fazer a prece tocaram a campainha. Custódio pediu para a empregada ir atender, com a recomendação de que se fosse alguém pedindo um prato de comida era para atender sem falar nada. A empregada foi até a porta e olhando pelo ferrolho próprio viu um homem bem vestido, de paletó e gravata um tanto magro, mas com excelente postura e aparência. Perguntou então de quem se tratava e o que desejava, tendo como resposta que era um amigo antigo da família, citando o seu nome. Como a empregada não o conhecia pediu que ele esperasse e voltando pra cozinha falou ao patrão:
          - Está aí um senhor que diz ser seu amigo. O nome que ele falou é LEONEL.
                    Custódio e a sua esposa Clara quase caíram de susto. Reperguntou à empregada:
          - Tem certeza que é Leonel o nome da pessoa?
                    Ela acenou que sim.
                    Imediatamente todos foram abrir a porta e ficaram como que hipnotizados quando viram o Leonel ali em carne e osso.
                    Passado o espanto geral, todos se abraçaram, choraram e, como não poderia deixar de ser a casa inteira se iluminou e começaram imediatamente uma festa para comemorar a volta do amigo.
                    Naquela noite quase ninguém dormiu, pois muitos outros amigos foram convidados às pressas, inclusive a Dora, namorada do Leonel, que até aquela data permanecia solteira, como se soubesse que um dia o seu noivo ia voltar.
                    No outro dia, o sol já estava alto e quente quando o pessoal da casa começou a levantar-se. Moradores e convidados presentes reuniram-se para o café da manhã. Conversaram bastante e em seguida cada um saiu para os seus afazeres.
                    Custódio estava empolgado. Quando saiu para o trabalho convidou e levou o amigo para o escritório que continuava sem nenhuma modificação.
                    É necessário dizer  que a memória do Leonel estava totalmente prejudicada. Ele se lembrava apenas do carro afundando na gamboa e mais nada. Não sabia o que tinha feito durante todo aquele tempo.
                    Após longas  horas de conversa sobre tantos assuntos resolveram ir à delegacia e ao fórum local para esclarecer e resolver algumas pendências inerentes ao desaparecimento de Leonel, bem como da sua volta, pois este fora declarado como morto, tendo em vista que somente o carro havia sido encontrado já totalmente corroído e imprestável, depois de mais de três anos dentro da água.
                    Faltando uma semana para a festa de aniversário do garoto Custódio chamou o amigo e como o maior cuidado possível falou:
          - Meu querido irmão e amigo Leonel diga-me para que eu ouça a tua voz que “se Deus quiser estará na festa de aniversário do meu filho”.
                    Mais uma vez Custódio decepcionou-se diante do que Leonel repetiu:
          - Para com essa besteira de Se Deus quiser. Se ele quiser eu vou e se ele não quiser é claro que eu vou. Você acha que vou perder esta festa?
                  Na noite que antecedia a festa caiu um temporal que inundou várias partes da cidade e mais uma vez Leonel desprivinido foi sugado pelas águas do córrego existente próximo da sua casa que ruiu.
                    Mais uma vez sumiu misteriosamente. No outro dia foi uma choradeira e uma tristeza que doía em todos. Leonel desaparecera como num passe de mágica.
                    Desta vez parecia que Leonel tinha sido engolido por alguma coisa muito estranha, pois já havia passado mais de dez anos e nunca o seu corpo foi encontrado.
                    Luizinho, o primogênito do Custódio com dezesseis anos tinha passado no vestibular e estava se preparando para ingressar na universidade onde pretendia seguir a mesma profissão do pai.
                    A felicidade dos pais e da família era quase incontida. Ficou resolvido que a festa para comemorar mais esta vitória seria em um clube de campo, onde tinha lagos, bosques, quiosques e atrações para todos.
                    No dia que antecedia a festa Custódio e Clara foram até o clube fazer uma vistoria, examinar se estava tudo em ordem e pronto para receber os convivas.
                    Lá chegando checaram tudo o que viram e podiam quando Clara à beira do tanque grande onde era o pesqueiro viu um sapo enorme, igualsinho o que anos atrás apareceu na sua casa, Ela pensou, resmungando mentalmente:
          - Engraçado. Parece o mesmo sapo daquela vez. Tem a mesma cor e o mesmo tamanho. Aproximou-se o mais que pode do animal que não mais coaxava, parado estático e pegou-o.
                    Sem nenhuma reação o bicho ficou ali bem quieto e dócil. Clara mais uma vez carinhosamente beijou as costas do animal e soltou-o no lago  anexo ao tanque.
                    O casal voltou para casa naturalmente mais ou menos umas sete horas da noite. Nem bem acabaram de entrar em casa ouviram tocar a campainha. Na ausência da empregada ou outra pessoa para atender, ele mesmo,  o Custódio foi abrir a porta. Quase caiu de costas novamente. Ali estava na sua frente em carne e osso, materializado o seu amigo Leonel. Ambos ficaram ali parados por mais de cinco minutos sem conseguirem falar.
                    Clara percebendo a demora do marido em voltar gritou da cozinha:
          - Hei amorzinho, o que aconteceu? Você calou-se de repente.
                    Falando assim começou andar em direção à porta da sala. Tal qual o marido parou a uns três metros de distâncias dos dois, sem fala e sem fôlego. Só emitiu um grito seco com a palavra “Nossaaaaaaa” o que é isso?.
                    Passados mais uns dois minutos todos saíram do transe. Anfitriões e visitante cumprimentaram-se efusivamente.
                    Abraçaram-se, choraram, sorriram, mas desta vez não houve festa. Dentro da casa conversaram sobre diversos assuntos até que os moradores da casa foram para os seus aposentos; ficando na varanda apenas o Custódio, a Clara e o Leonel. Este igualmente a outra vez não se lembrava de nada a não ser de que fora sugado pelas águas dentro de tubulado. O resto apagou-se da sua memória.
                    Clara como se estivesse vendo lembrou-se da aparição daquele sapo ali naquela varanda, bem naquela manhã lá no lago do clube, associando a coincidência. Por isso com voz branda comentou com o marido:
          - Amorzinho, que curioso. Não sei se você observou, mas as duas vezes que nos apareceu aquele sapo grande e diferente o Leonel também apareceu. Vocês me dão licença?. Vou deitar-me. Estou bem cansada.
                    Ficando a sós, dado ao adiantado da hora Custódio convidou o amigo para irem para os seus aposentos, mas antes recomendando:
           - Leonel, meu irmão querido, você prestou atenção no que a minha esposa Clara comentou? Não falei nada para não deixa-la preocupada, mas faz sentido o que falou. A propósito gostaria muito que você estivesse nesta festa do meu filho. Por caridade. Diga que se Deus quiser você estará amanhã comemorando com a gente. E que se Deus quiser você vai retomar a sua vida em paz, no seio dos teus entes queridos que te amam tanto e que sofreram muito pelos seus desaparecimentos por duas vezes.
                    Querer o reconhecimento do erro e da teimosia de incrédulos é uma tarefa difícil. Necessário se faz muita abnegação e desprendimento. Por isso Custódio mais uma vez decepcionado chorou na cama pela resposta estúpida do amigo que falou:
          - Custódio. Você sabe que eu não acredito em Deus. Não gosto de Deus. Ele nunca fez nada por mim. Se Deus existisse não teria deixado acontecer o que aconteceu comigo e eu não estaria nessa situação em que me encontro. Não sou ninguém. Não tenho identidade e mais nada. Já fui dado como morto duas vezes.
          - Por favor, não fale mais em Deus perto de mim. Pode esperar que estarei na festa desta vez, Deus querendo ou não.
                    No dia seguinte como sempre cada um saiu para fazer as suas tarefas. Custódio convidou gentilmente o amigo para ir com ele até o escritório, mas Leonel recusou o convite alegando que estava um tanto indisposto. Que iria dormir mais um pouco e depois fazer uma caminhada pelas ruas da cidade para se familiarizar com tudo que estava modificado.
                    Na hora de irem para o clube deram pela falta do amigo Leonel e o procuraram por todos os cantos possíveis e imaginários sem lograr êxito.
                    Já um tanto acostumados com esses desaparecimentos Custódio e a família seguiram para o clube a fim de dar continuidade no que programaram.
                    Estavam todos entretidos, uns comendo churrasco, outros jogando cartas, outros nadando na piscina; as crianças no player groond e algumas pessoas na beira do lago olhando os peixinhos quando de repente uma criança gritou:
          - Papai, mamãe vem aqui depressa. Tem um sapo bem grande aqui. Vem logo,
                    Todos que ouviram correram para o local, inclusive o Custódio e a Clara, Só que quando todos os que lá chegaram viram o sapo coaxar bem forte e saltar pro fundo do lago. Dali em diante ninguém mais o viu. Voltaram para as atividades em que estavam e esqueceram do sapo.
                    Passaram-se os anos. Custódio e Clara iam comemorar as bodas de prata, Vinte e cinco anos de muito amor e compreensão. Aquele casal era um espelho de bondade. Todos tinham uma admiração pela retidão de caráter de ambos. Ninguém nunca vira uma única discussão entre os dois.
                    O salão onde eram recebidos os convidados estava lindamente enfeitado com requinte e muito bom gosto. A iluminação do ambiente pelas lâmpadas em cristais finos demonstrava a beleza e a classe. Via-se que o casal era extremamente zeloso.
                    A orquestra já se preparava para tocar a valsa. Os convidados formavam um círculo em torno dos nubentes em bodas. Neste exato momento uma voz vindo da porta de entra principal chocou e chamou a atenção de todos os presentes.
          - Me perdoem meus irmãos queridos. Demorei mais cheguei a tempo. Custódio e Clara peço perdão por tudo o que fiz pra vocês. Agora estou aqui porque aprendi amar. Aprendi o que é o amor. Vocês me ensinaram.
                    Custódio ainda conseguiu falar com a voz embargada:
          - Nossa! Graças a Deus você veio meu querido irmão Leonel. Já não era sem tempo.
                    Mais uma vez Leonel surpreendeu tanto que fez todos chorarem e sorrir ao mesmo tempo pelo que respondeu:
          - Sim meu irmãozinho Custódio, minha irmãzinha Clara e todos que aqui estão.
          - Graças a Deus pude chegar ate aqui.
          - Se Deus quiser vou ficar para sempre na convivência de vocês.
          - E se Deus não quiser terei que voltar para os lagos e gamboas da vida e lá ficar coaxando pelo resto da minha existência...
                 Sabem meus amigos e leitores? A minha bisavó “Madrinha Dita” como carinhosamente a chamávamos que viveu e morreu lá na Ilhabela - SP com cento e doze anos de idade era índia bugre e analfabeta. Fumava em cachimbo de barro que ela mesma fazia e até o penúltimo dia de vida confeccionava cestas e balaios de bambu e esteiras de taboa. Na sua linguagem bem humilde nos dizia:
         
          “Nós só vamos e chegamos onde Deus nos permite, para o nosso próprio bem. Nós recebemos de Deus o que é melhor sempre. O pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada. Só chegaremos num bom lugar se tivermos o amparo de Deus”                 
CLEMENTINO POETA E MÚSICO
Enviado por CLEMENTINO POETA E MÚSICO em 05/06/2012
Alterado em 24/07/2012
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